sábado, 20 de setembro de 2008


Queridos

O Blog está mega desatualizado, mas após o dia 05 de outubro voltarei com carga total! E com muito mais histórias para contar! A pessoa está trabalhando horrores e sem um segundo para escrever!
PS: Ok! Vocês venceram!!!! Tentarei diminuir o tamanho dos textos. Mas não garanto muito não!

Beijos
Tati

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Fala que eu te escuto


Não consigo pensar em nada que irrite mais um repórter que uma pauta com o maldito Fala Povo. Os editores costumam argumentar que o uso de personagens faz com que os leitores identifiquem-se com a matéria. Então tá. Na época em que trabalhava na Economia do JT, toda vez que abria meu computador para conferir minha pauta do dia, fazia pensamento positivo, mandinga, novena e tudo mais que conheço para que a discrição da pauta não fosse a seguinte: Vamos fazer uma matéria sobre inadimplência e ouviremos os órgãos competentes e alguns economistas. Além disso, vamos para a rua, com fotógrafo, fazer um fala povo com cerca de 10 personagens. A pergunta que não queria calar era: Vamos quem cara pálida? Eu vou, né!

Agora me fale. Você, em sã consciência, toparia dar uma entrevista, com foto estampada na primeira página do jornal, com os dizeres fulano está com o nome sujo porque não pagou o financiamento do carro, teve dois cheques devolvidos e não pagou a conta do celular? Ou seja, devo, não nego, pago quando puder. Então, minha vida era assim. Acordava pela manhã, ia para o jornal, tomava conhecimento da minha pauta e seguia para a rua, neste caso na porta do Serasa, em busca de algum doido disposto a dar entrevista sobre os temas mais diversos. Algum doido não, 10 doidos.

E a pergunta? Ninguém merece! “Oi, tudo bem? O senhor veio limpar seu nome? Está devendo o que e por que”? Juro que se fosse uma das vítimas responderia: "Minha filha está tudo ótimo. Estou aqui porque adoro fazer turismo no Serasa, ficar na fila o dia todo e ainda e ser mal atendido". O pior é que não bastava pagar este mico apenas. Entre os personagens deveria ter pelo menos duas mulheres dessas gostosonas, uma loira, claro. E para achar uma dessas na fila dos inadimplentes. E para convencê-la que não queimaria o filme sair na primeira página do jornal como devedora.

Esse foi apenas um dos casos. Lembro-me ainda a matéria do feijão. Todos os repórteres da editoria arrumaram um jeito de escapar desta pauta. Um belo dia meu editor, o responsável pelo meu Karma do Fala Povo, virou para mim e disse: “Tatiana! Você ainda não me entregou a matéria sobre o aumento do preço do feijão. Daqui a pouco ele baixa novamente e nós tomaremos um furo”. Primeiro, ele nunca me pedira tal matéria. Segundo, materião, hein! Terceiro, furo? Não consta na minha memória que nenhum jornalista que tenha feito uma matéria sobre o aumento do preço do feijão tenha recebido o Prêmio Esso por isso. O duro foi a teoria levantada e que deveria ser questionada para os dez personagens e para a tal gostosa. Que era a seguinte: Já que o preço do feijão subiu, as pessoas devem tê-lo substituído por outro produto. Macarrão é lógico. Imaginem a cena. Eu, na porta do Pão de Açúcar da Rua Ministro Rocha Azevedo, nos Jardins, perguntando para a Angelita Feijó (o sobrenome foi apenas uma acaso com o feijão), isso a socialite, atriz e modelo, se ela reparou no aumento do preço do feijão e o havia substituído pelo macarrão. Hã?

Aliás, esse meu editor merece uma postagem inteira. Um dia farei um breve perfil do ser. Ainda não sei se ele me amava ou me odiava. Já que o dia em que eu ia trabalhar toda arrumadita, de salto e tudo, ele me mandava para a favela para fazer uma matéria sobre ligações clandestinas, o famoso gato. Mas, quando eu aparecia de tênis, rabo de cavalo e calça jeans, ele me mandava para a Daslu ou para entrevistar o presidente da Fiesp. E morria de rir da maldade.

Aí, tem outra pessoa diretamente atingida pela loucura dos milhares de personagens do fala povo. Já viu a alegria de um fotógrafo quando a pauta chega na fotografia e está lá bem grande para quem quiser ver FALA POVO – 10 personagens. Eu já jurei por todos os santos que não era culpa minha, nem o maldito fala povo e muito menos o número de entrevistados. O duro é que eram dez personagens, com aquelas fotos super originais, que todo fotógrafo adooora, o retrato (quase uma foto três por quatro) e normalmente saiam apenas dois, a gostosa e alguém com uma história inusitada. Morte ao repórter na certa! E o tanto de ligação que eu recebia de pessoas me perguntando: “Dei uma entrevista para você. Minha foto não vai sair não”? Foi quando descobri que existe doido para tudo neste mundo. O cara não faz nada da vida mesmo. Parou no meio da rua para dar uma entrevista, em horário de trabalho, se deu ao trabalho de lembrar o nome da repórter e pior, descobrir o telefone da redação para cobrá-la sobre a foto. Me economiza, vai!

Meus maiores dramas foram duas pautas em especial. A primeira na época do racionamento de energia. Todo dia eu tinha que achar alguém que tinha ficado sem luz no dia anterior e, detalhe, fazer uma foto dela no escuro. Novamente a pergunta proposta era uma pérola. “O que o senhor está achando do apagão” Depois me falam que sou Tolerância Zero. A outra foi na época que o preço da gasolina subia e descia todos os dias, CPI do combustível e tudo mais. Meu querido editor me deu a seguinte tarefa: Durante todo o mês eu deveria percorrer, diariamente, cinco postos de gasolina de cada região da capital para conferir na bomba o preço do álcool e da gasolina, com duas estagiárias a tira colo. Fofas, mas essa elas me devem. Ah! Isso deveria render uma matéria por dia. No final do mês eu já estava colecionando leads sobre o assunto.

Mas nada me deixou mais traumatizada, ainda na época do racionamento de energia, que a história do roubo de lâmpadas fluorescentes nos hotéis cinco estrelas de São Paulo. Novamente meu genial editor me chamou em sua mesa e me passou a seguinte informação: Alguém da diretoria leu na coluna do Giba 1 que um hotel de luxo de São Paulo não sabe mais o que fazer em relação ao roubo de lâmpadas dos quartos. Ache essa nota e se vire para achar o hotel. Virei a Internet e os jornais da semana do avesso tentando encontrar a tal nota e nada. Tive a brilhante idéia de procurar um guia de hotéis da cidade e ligar para todos os cinco estrelas.

Que vergonha! A pessoa mais educada me deu a seguinte resposta: “Querida, você é do JT não é? Então, como jornalista bem informada deveria saber que nossa diária mínima custa R$ 1,5 mil. A troco de que uma pessoa que paga esse valor roubaria uma lâmpada? E outra, se isso estivesse acontecendo nós nunca falaríamos. Tudo que está dentro dos quartos já está embutido no valor da diária”. Ah! Então ta. Obrigada. Isso não seria nada se o mala do editor tivesse se dado por contente e não me mandado ligar para todos os quatro e três estrelas, pousadas, albergues, motéis e semelhantes. “Se alguém der essa matéria amanhã você está na rua”. Posso dizer que trabalhei no JT por mais alguns longos anos. Giba 1 você me deve essa! O Coxinha...nem comento! Deve estar trabalhando na produção do Fala que eu te escuto.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Cada um no seu Square

Não existe mico maior que participar dos processos seletivos de multinacionais. Quando inventei uma nova moda para a minha vida, entrar para o mundo da comunicação corporativa, não tinha a menor idéia de como funcionava um RH, nem a linha de raciocínio que define as contratações. Na minha santa ingenuidade imaginava que seria apenas ter um bom currículo e uma boa apresentação na hora da entrevista. Mas não. Há mais coisas entre o Head Hunter e um gerente de RH do que possa imaginar nossa vã filosofia.

Começa aí a saga do pobre jornalista, rato de redação, que sonha em deixar de ser peão, ter plano de carreira, bônus, benefícios e o mais importante; parar sofrer com os passaralhos de final de ano, conseguir trocar o Fiat Uno 93 e financiar apartamento em Higienópolis. Vai me falar que o ideal de qualquer jornalista não é morar no Edifício Louveira, projetado por Vilanova Artigas e Carlos Cascadi bem em frete à Praça Villaboin e comprar um daqueles carros utilitários desportivos. Mas, voltando ao assunto, quando dei por conta que este também era o meu objetivo, passei a enviar meu currículo para todas as vagas de comunicação corporativa. Participei de diversos processos seletivos e sem obter muito sucesso resolvi fazer uma análise de meus pontos fortes e fracos.

Realmente não tinha a mínima idéia do que significava, por exemplo, arquitetura da informação, endomarketing e a tal da taxa de P/E. Durante um mês entrei em todos os sites que abordavam o assunto em busca de mais conteúdo, nenhum que me ajudasse muito. Percebi que precisava de mais qualificação para compreender todas estas funções da comunicação, que achava ter aprendido na faculdade e nos meus anos de jornalismo. Matriculei-me em uma pós-graduação de Gestão da Comunicação na USP, já que os MBAs dos outros lugares estavam fora do orçamento de um repórter. Fiat Uno 93 lembra? O curso é bom, mas arquitetura da comunicação, nome bonito que significa o que exatamente?

Aí, fico pensando. Qualquer profissional em dia com as exigências do mercado está careca de saber que, além de experiência profissional e acadêmica, é preciso falar mais que uma língua. Mas...se alguém souber de alguma escola de idiomas que esteja ensinando o corporativês me avise por favor. Ao ler um anúncio de vaga na Internet saco logo meu dicionário desta nova língua tão propagada no meio corporativo. Aí sim consigo ter certeza que estou dentro do perfil procurado pela empresa.

O problema é que durante a entrevista não posso fazer uso de tal ferramenta para entender o que o gerente de RH está me falando. Sendo assim, o cara acha que não tenho competência para a vaga, eu começo a concordar que talvez não a tenha e vou embora com uma interrogação enorme na testa. Não é má vontade, mas não vejo a necessidade de tantos neologismos e estrangeirismos. Outro dia escutei algo assim: “Após um brainstorm com o nosso CEO, CFO, CHRO e chairman definimos que, de acordo com o nosso budget teremos de redirecionar o nosso corporate purpuse e promover um downsizing”. Entenderam agora o que digo? Não seria mais fácil dizer simplesmente: “Galera, fudeu! A diretoria percebeu que a empresa não está faturando e resolveu mudar as metas da empresa. Sendo assim, segure-se quem puder, pois teremos demissões”. Não com essas palavras, é claro, mas esse blábláblá todo quer dizer isso e nada mais.

A grande questão é que muitas pessoas passam a usar essas expressões como a tão famosa “mudança de paradigma” achando que estão falando bonito. Na verdade, só estão passando o atestado da bolha em que vivem. Vamos concordar que as teorias de Galileu Galilei foram uma mudança de paradigma, mas um novo jornalzinho interno não é. E esse equívocos ocorrem em todas as esferas, mesmo os que ainda não fazem parte desse Corporative Land já usam esses termos. A febre é parecida com a do gerúndio. Sabem de qual estou falando, né? “Vamos estar transferindo a sua ligação para um de nossos atendentes”. Lembrou?

Uma vez me contaram que ao participar do processo de seleção para uma vaga de estagiário, o candidato, de 20 anos, disse que era uma pessoa hiperativa. Após alguns segundos de silêncio na sala o recrutador resolveu perguntar o que ele queria dizer com aquilo. A resposta foi uma dessas pérolas que precisam ser anotadas: “Sou um profissional com iniciativa, que não preciso ser cobrado para executar uma tarefa”. Será que ele pensou proativo é pouco, sou super, hiper ativo. Por essas e por outras continuo com o meu velho e bom português. Já é difícil usá-lo corretamente imaginem se começarmos a colocar um monte de palavras no meio do “pra mim fazê”, que escuto todos os dias. Talvez ele soasse melhor se juntássemos tudo. Quem sabe: “Pra mim participa do brainstorm com o CEO, CFO, CHRO e o chairman eu vou estar fazendo uma avaliação 360 graus e um relatório sobre o clima organizacional para avaliar a sinergia”. Sinergia para mim era coisa de bicho grilo, que fumava um e ficava sentindo a sinergia. Até isso mudou. Agora é Vibe.

Agora, me digam vocês coleguinhas jornalistas. Você já precisou saber essa baboseira para fazer o seu trabalho? Juro que é difícil entender e mais ainda de acreditar nas descrições de vagas. Darei um exemplo: Multinacional contrata gerente de comunicação master com experiência no segmento corporativo, boa redação, eventos, marketing, endomarketing, relações com fornecenores e governamental, disponibilidade para viagens, inglês fluente, espanhol e pós-graduação desejáveis. O profissional pode ter formação em comunicação, marketing, relações públicas, administração e economia. Remuneração: R$ 1,2 mil. Início imediato. O pior é que isso é sério e tem gente que leva isso tão a sério que até faz curso para trabalhar em RH. E agora eles também acham feio escrever Curriculum Vitae. Tudo bem que é medonho mesmo, mas não poderia ser apenas currículo. Claro que não! A moda agora é “Perfil Profissional ou “Histórico Profissional”. Acho que passarei um bom tempo com um Uno 93 e morando no apartamento de quarto e sala em Santa Cecília mesmo. Afinal...cada um no seu quadrado. Ou melhor Square, mais chic, mais corporativo.

domingo, 27 de julho de 2008

Agora todos os dias são não


Hoje acordei com saudades de meu mestre e amigo, Murilo Felisberto. De escutar seus conselhos, suas broncas e sua risada quando lhe contava alguma fofoca. Então corri para procurar em minhas pilhas de papéis, jornais e revistas, os seus desenhos, tentando lembrar do momento em que foram feitos. Hoje encontrei, também, aquele tipo de loira que nós não gostávamos e não tinha para quem contar o ocorrido. Passei na banca onde ele costumava encomendar suas revistas e fiquei tentada a comprá-las só para ver se em alguma página eu encontraria algo que me lembrasse o Murilinho. Senti vontade de telefonar e escutar o já esperado “Tatiana Vicentini, que surpresa agradável”, que ele costumava dizer mesmo quando já sabia que eu iria ligar.

A última vez que falei com o Murilo foi para marcar um de nossos almoços na Bolsa com o Rabininho. Ele não apareceu, não estava se sentindo bem. Neste instante percebi que meu mestre era mortal. Dias depois tentei falar com ele para saber como estava, mas não consegui. Imaginei que estaria em Lavras. Para minha tristeza, ao ligar para o Rabino recebi a notícia de sua morte. Em choque, custei e custo a acreditar que ele se fora. Para mim, Murilinho ainda está em algum lugar, carregando seu pacote de livros em baixo do braço, após sua peregrinação à Fnac e a alguns sebos, desenhando suas caricaturas, com suas lapiseiras e canetas amontoadas no bolso da camisa, olhando por cima dos óculos com armação redonda de tartaruga e falando: “Me conte alguma novidade”.

Assim era meu mestre. Essa é a forma como gosto de me lembrar dele. Murilinho sempre sabia de tudo, com detalhes. Ele adorava repassar as fofocas e criar atritos para depois se divertir com os comentários. Mesmo por acaso e sem ter muita paciência dava aulas de jornalismo durante nossos jantares, que algumas vezes contavam com a presença da Jú Simão ou do Rafa Urenha, nunca os dois juntos. Isso para que um dos temas fosse o ausente. Mas preferia contar deliciosas histórias, sempre sobre os amigos ou desafetos, os quais nem sempre conhecíamos, nunca sobre ele próprio. O que lhe dava um ar misterioso. Não ia às festas, mas no dia seguinte nos chamava em sua sala para saber de todas às fofocas. Aliás, depois da fofoca, o mistério era seu prato preferido. Murilinho contava os causos pela metade só para te deixar curioso e fazer com que você fosse atrás de mais informações e lógico, como conseqüência, lhe passasse mais fofocas.

Uma vez cheguei à redação do Jornal da Tarde e encontrei um buquê de flores em cima de minha mesa com um cartão que dizia: “Parabéns pela brava cobertura jornalística, assinado Mu.” Fui à sala dele e perguntei se havia gostado da matéria do dia anterior. A resposta me deixou transtornada. Um simples NÃO. Voltei para minha mesa sem entender nada, mas sem me dar por contente com a resposta. Quando o Murilinho sentou-se no mesão, no final da tarde, fui até ele é perguntei a qual cobertura ele se referia. A resposta não ajudou muito, apenas me respondeu com uma outra pergunta. “Você não sabe?” Até hoje releio as matérias da época tentando adivinhar a qual delas ele elogiara. Mas não me preocupo. Afinal, como ele mesmo diz: Amigo é alguém que gosta de você, apesar do seu sucesso.

Quando saí do JT senti uma falta enorme da redação, mas com o tempo percebi que, sem o Murilo, ela havia perdido a cor, a magia, o coração. Quando a saudade bate me arrependo de ter ido para Brasília e tornado nossos encontros menos constantes e nossos telefonemas mais curtos. Imagino o que ele diria desta fase de minha vida e se ainda me consideraria uma boa jornalista. Afinal, dentro da filosofia felisbertiana os bons eram os jovens, mas só uma parte deles, e ruins eram os velhos, os que tinham mais de 30 anos, e a outra metade dos jovens. Faz pouco mais de um ano que ele se foi e faz pouco mais de um ano que passei dos trinta. Precisava de seus conselhos para continuar até os 60. Queria levantar meus olhos da tela do computador e ver aquele homenzinho de cabelos brancos, calça bege, camisa e casaquinho vindo em minha direção com ar de riso pronto para lançar uma de suas maravilhosas frases, que apenas um ser brilhante como Murilo Felisberto poderia produzir.

Hoje acordei com saudades de meu mestre e amigo e logo me lembrei de uma de suas frases. “Agora, os dias para mim são dia sim e dia não. Hoje estou no dia não”.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Vácuo Literário


Como definir o vácuo? Usamos esta palavra todos os dias, para as mais diversas situações. “Vácuo de memória”, “Vácuo no coração”, “Vácuo da História”, “Embalado a Vácuo”. Mas será mesmo que o vácuo é o vazio, a ausência de tudo, onde vive o nada?

Creio existir um preconceito em relação à palavra, uma intolerância ao vácuo. Nem sempre vazio significa nada. Os Budistas, por exemplo, quando meditam buscam o Nirvana. Que de modo simplista quer dizer o vazio da mente. Deixar sua mente livre dos pensamentos e o corpo dos sentimentos. Neste caso nunca atribuíram o Nirvana ao vácuo. Mas de qualquer forma, sejamos honestos, a solidão plena nos faz afáveis aos nossos desafetos.

Eu mesma me pego, por muitas vezes, insultando o vácuo. Quando saio na rua e vejo uma daquelas mulheres que, mesmo precisando se deitar na cama para fechar o botão, teimam em usar a calça, logo penso: “Lá vai uma salsicha embalada a vácuo.” Pobre salsicha, pobre vácuo em nada se relacionam com a falta de noção.

# Entrou no vácuo ou pegou a vácuo

Existe até uma “nova” ciência, intitulada pelo cientista Francisco Varela como Ciências Tecnológicas da Cognição, onde demonstra-se os limites da representação no fenômeno do conhecer, numa interessante consonância com os postulados ontológicos sobre o “si” da “cadeia de pensamento” formada por Nietzsche , Heidegger , Merleau-Ponty e Foucault. E voltamos assim ao vácuo, ao vácuo da mente. Francisco Varela estabeleceu os caminhos de tornar aplicáveis as “técnicas-de-si ou retorno a si” para acesso a uma realidade até hoje desconhecida. Acesso possível, então, via o esvaziamento completo da mente que conhece, gerando efeitos positivos para o conhecimento científico: o contato com o mistério e com o vazio profundos que se tornam instrumentos a iluminar o caminho da “nova” ciência.

Ou seja é preciso “sair-de-si” para observar a si mesmo no ato de conhecer. Isso convida a um vazio, a uma mudez, ao incólume vácuo da mente que deve parar no tempo e no espaço; esvaziar-se; tornar-se desapegada de todos os vestígios de cotidianidade impregnados ao longo de uma história de acoplamento ao mundo objetivo, concreto, tangível.

E o pior de todos os empregos do vácuo! Já que já apliquei o vácuo na moda, nos esportes, na religião e na ciência, o vácuo social. Com certeza já ouviram falar ou já falaram: “Fulano vive em uma bolha.” Isso significa que o cara vive isolado do mundo. E daí? Eu sonho muitas vezes em entrar numa bolha e só sair quando o mundo parar de girar. Tá bom! Já sei o que estão pensando! Essa maluca usa tóxicos, fumou um cigarrinho do diabo e desandou a escrever. E a resposta é bem simples; sou assim desde que saí da bolha de minha mãe.

E para comprovar minha teoria sobre o vácuo como apartado social...Outro dia, xeretando naquela coisa chamada Orkut, que podemos chamar de vácuo de uma espécie da relação humana, encontrei alguns companheiros de vácuo, ou melhor de bolha. Uma comunidade chamada “Sonho em andar numa bolha”. Isso não prova em nada meus pensamentos, mas serve para mostrar que não sou uma doida no vácuo.

Quando o Flaitt me convidou para escrever esta coluna aceitei com um misto de prazer e vaidade, mas então veio o vazio, o vácuo. Sem palavras, sem idéias, sem inspiração. Foi daí que sentada em um canteiro na festa junina de minha sobrinha, em meio a centenas de crianças berrando, pais afoitos e parentes entediados que parei para observar um caipirinha fazendo bolas de sabão.

Então a festa tornou-se cheia de ninguém e éramos apenas eu e a bolha de sabão. Tão linda, translúcida e delicada, mas sem nada dentro. Por alguns instantes meu olhar fixou-se em sua simplicidade. Como se nada mais existisse, nem dentro, nem fora da bolha de sabão. Só ela a flutuar sobre minha cabeça, gentilmente sorrir para o sol, acariciar meu rosto e explodir.

Despertar!!! E ao meu redor vida, palavras, idéias, inspiração. A pureza do vácuo me fez enxergar a beleza de tudo que existe em sua ausência. Onde pensara não haver nada de repente tudo aparece. O vácuo é tão e simplesmente o momento que antecede tudo. O que para o poeta podemos chamar de inspiração.

O enterro


Vocês já perceberam que quanto mais tentamos fugir dos micos mais eles nos perseguem? Eu já me acostumei e tiro essas situações quase de letra. Tá vai, às vezes perco a esportiva e tenho vontade de ficar trancada no escuro um mês tentando entender como aquilo foi acontecer justo comigo. Mas este, acredito eu, foi um dos piores de minha carreira jornalística. Se foi o pior não sei, mas este foi publicado na grande imprensa. Estava eu um dia na redação, mas precisamente dia 19 de julho de 2000, quando meu chefe de reportagem começou a olhar para os lados verificando quem ainda restava naquele horário, onze da noite. Ele correu o olho por todas as editorias até que languidamente encontraram os meus. Na verdade não foi bem assim, ele gritou: TATIANA!!! E aquele som macabro veio da mesa dele até a minha. Saí de trás de meu computador imaginando o que teria feito de errado desta vez. E logo veio a bomba...

- Morreu o marido da Hebe, sabe que ele é né? Então pegue suas coisas e vá para o Einstein encontrar o fotógrafo que já está lá. Fale com os famosos que aparecerem no velório; descubra como foi, quando foi e tudo mais e amanhã vá direto para o enterro no cemitério Morumbi.

Claro que fiz o que me pediu, mas no caminho até o Morumbi fui pensando... Quem é o marido da Hebe, é o Lélio? Não. Acho que esse foi o primeiro, o pai do filho dela. Mas o que eu vou perguntar para essa gente? Oi, tudo bem. O senhor por aqui. Conhecia o falecido? Eram amigos? Gostava dele? Como está se sentindo? É a primeira vez que vem num velório? A minha é, pelo menos a trabalho. Aí que horror! O tipo de pauta que qualquer repórter odeia fazer. Até porque não tem nada mais constrangedor que entrevistar alguém da família neste momento. Então resolvi pensar na parte boa. A Hebe. Eu gosto dela. Meu sonho de consumo é chegar à idade dela assim, com as pernas da Hebe. A conta bancária já valia, comprava umas pernas iguais. Começaram os pensamentos absurdos que sempre levam ao Grant finale, o mico. Será que ela estará maquiada e com o cabelo imexível??? Não é possível que no enterro do marido ela continue uma “gracinha”. Se estiver vira minha diva para o resto da vida. Mas ele não devia ser chique como ela. Porque tenho uma teoria... Gente chique morre no final de semana para dar tempo de todo mundo ir, sair no Fantástico e tumultuar o plantão das redações. E já era terça-feira, não vale mais, a matéria sai num espaço menor. Tem que concorrer com as eleições, São Paulo Fashion, incêndios por causa da seca.

E por aí vão as elucubrações que até eu tinha vergonha de imaginar, mas o motorista do jornal olhava para minha cara com ar de riso. Pensei, será que falei alguma besteira alto? Será que ele está pensando o mesmo que eu? Até que surgiu uma voz lá no fundo do meu cérebro dizendo: Tatiana!!! Chegamos já faz uns dez minutos não vai descer do carro, não? Ah! O velório. Um frio de matar, sem trocadilhos, por favor. Todos os coleguinhas, esses são os outros repórteres, sentados no meio fio conversando a espera de alguma celebridade para fazer umas das perguntas geniais feitas nestas ocasiões. Depois de horas sentados alguém teve a feliz idéia de comprar conhaque em um boteco. Até aí ótimo se, eu tomasse conhaque, preferia um vinho ou minha cama, se possível. Quando o sujeito chegou com a salvação para o frio algum dos desocupados fala – Não bebo em serviço. E logo outro desocupado responde - Isso não é serviço é martírio. Não é possível, nós aqui fora não queremos estar aqui, quem está dentro não quer que estejamos aqui. Não tem mais ninguém aqui além de nós e do segurança. Agora me responda quem vai ler amanhã sobre o velório do marido da Hebe? E eu pensei ... meu pai. Só para saber se eu estava aqui mesmo e não menti e fui para a balada. Bom, ficamos a noite toda em frente ao Einstein, entrevistamos meia dúzia de alguém, passamos frio, fome, sono e eu ainda não tínha feito nenhuma besteira. Isso era um recorde. O episódio do carro foi distração, não conta como mico.

No dia seguinte acordei com meu pai berrando na sala avisando que o carro do jornal já estava na porta. Mal sabia eu que um erro de vestimenta me levaria à tamanho mico. Levantei e enquanto tomava um banho de gato para despertar fiquei pensando. Acho que este foi o problema, pensei demais. Mas enfim, imaginei... já é tão indelicado aparecer num enterro assim, ainda mais para fazer matéria. Acho que seria gentil de minha parte ir de preto, pelo menos em sinal de respeito. Foi então que tudo começou. Desci do carro em frente ao cemitério e logo recebi a notícia que a imprensa não entrava. Eis o primeiro problema. Como vou explicar para meu editor que não tinha matéria, que fiquei do lado de fora? E como meu problema é pensar demais tive uma idéia. Combinei com mais algumas coleguinhas repórteres que entraríamos como convidados, com o bloco e o gravador na bolsa só para ver quem estava e tentar falar com alguém na saída. Com a Hebe não, claro. Isso não se faz. Para tudo tem limite. Só se ela quisesse falar.

Entramos no velório do cemitério e a primeira pessoa que avistamos foi Paulo Maluf, Dr. Paulo como chamamos, então candidato à prefeitura de São Paulo pelo PPB. Ele, como de costume esbanjou simpatia e elogiou o falecido. Entramos logo atrás dele no cemitério e tivemos a certeza que nosso disfarce estava funcionando. Acompanhamos o enterro esperamos todos os rituais em silêncio. Mas do meu canto percebi que o Dr. Paulo cumprimentava o máximo de pessoas que conseguia. Qual não foi minha surpresa, quando o candidato veio em minha direção com um ar consternando. E quanto mais ele se aproximava, mais minha angústia crescia. Pronto! Lembrou da minha cara, fui descoberta. Vou sair correndo assim ninguém saberá que eu sou eu, ou melhor, repórter. No entanto, para meu completo desespero, ele se aproximou deu um tapinha em minhas costas e me consolou, possivelmente me confundindo com algum familiar ou alguém do círculo de amizades do marido da Hebe. E assim ficou, com ar de velório, segurando minha mão até o final do enterro.

Atônita, não sabia o que fazer nem pensar. Será que foi porque eu estava de preto? Mas a fama do Dr. Paulo é de ter uma memória de elefante. E eu conhecera-o na véspera, no velório do hospital. Eu não sabia se pedia licença e sai ou se conversava. Mas conversar o que? Oh Dr. Paulo como vai a campanha? E a Dona Silvia, encontrei-a na entrada uma simpatia, não? Ele também não ajudava. Continuava lá com seu ar consternado e ... mudo. A entrevista com ele eu tinha feito no dia anterior. Para assuntos de enterro, não havia intimidade nem com a família de Hebe, muito menos com ele, Maluf.

Confusa, buscava uma solução olhando de forma incisiva para minhas amigas de disfarce, que ao longe seguravam o riso. Como não tinha jeito resolvi ficar calada e tão imóvel quanto o candidato, de mãozinhas dadas e rezando para ninguém me ver naquela situação. É por isso que eu digo raça pior que a de advogado e político só jornalista. Solidariedade??? Ao ver minha cara de aflição as coleginhas se retiraram para não rolarem de rir no meio do enterro. Pior, contaram para todo mundo. Pior, meu editor ficou sabendo e me fez escrever uma matéria relatando o fato. Quer pior? A Erundina leu a matéria e os repórteres que a conheciam juram que ela morreu de rir, e olha que para ela rir. E por fim, Dr. Paulo leu a matéria. E não é que no meio da campanha, eu estava cobrindo a Marta Suplicy e um dia tive de cobrir Maluf e, ele lembrou da minha cara e da matéria.

- Tatiana Vicentini!!! Que bom vê-la por aqui. Hoje em circunstâncias mais agradáveis, não acha?

Quase morri de vergonha. Não sabia se me desculpava ou tentava explicar e mais uma fez preferi ficar muda. A moral do mico em edição nacional é que nunca mais fui de preto a enterros, nunca mais invadi velórios, casamentos ou festas infantis e me prometi que toda vez que cometer um mico desses negarei até o fim. Bom, até o fim não, mas até se tornar apenas um causo no passado distante.